Sempre fui uma criança agitada, ativa; não
hiper-ativa com qualquer destas síndromes, na minha época de infância nem
existiam estes conceitos, mas sempre brinquei na rua, criei brinquedos.
Uma de minhas primeiras lembranças é de
uma cadeirinha de vime que eu tinha, tipo uma meia bola com os pés de madeira,
era o acento de meu carro de corrida, cuja direção era outro banquinho alto com
acento redondo deitado a minha frente, os pedais eram chinelos de dedo virados
e o câmbio era um desentupidor de pia, desses de borracha com o cabo de
madeira. Eu era o próprio Emerson Fitipaldi pilotando a Copper Succar... Essa
foi apenas uma de minhas criações. Mas sempre ativo e criativo.
Aos 11 anos ingressei no Movimento
Escoteiro e sou categórico em dizer que metade do que sou hoje devo a minha
criação e meus pais, mas a outra metade devo ao Escotismo. Lá aumentou ainda
mais minha veia de realização, pois permaci por 30 anos consecutivos, de
escoteiro júnior até Secretário Geral da União dos Escoteiros do Brasil. Lá
realizei muita coisa, conheci muita gente, rodei o mundo, desenvolvi muitos
projetos e aprendi a lidar com todo tipo de gente. Digo que por 30 anos, como
jovem e como adulto depois, doei meus finais de semana ao Escotismo, e faria
tudo de novo.
Aos 13 anos, meu pai já era empresário e
proprietário de uma tecelagem, e estudando de manhã, na parte da tarde enquanto
meus amigos estavam em casa curtindo o período livre, eu ia para o escritório
com meu pai, pra fazer os bancos e voltas acompanhando ele, levando sua pasta
007, e aos 14 anos, assim que já foi permitida minha contratação, fui
contratado na fábrica e passei a trabalhar oficialmente durante meio período.
Nunca ganhei um dia sequer de “mesada”, sempre salário! Essa foi uma das
primeiras decisões empreendedoras de minha vida, pois qual a criança que troca
uma boa tarde de diversão e descanso para ir trabalhar com o pai por conta
própria?
Na fábrica como disse iniciei minha
trajetória como “office boy” de luxo, até que pudesse assumir de fato uma
função. Na sequência passei a ajudar no chão de fábrica com a “meadeiras,
rocadeiras, espuladeiras, e urdideira”, todas máquinas próprias de uma indústria
têxtil. Ajudei na Expedição, aprendi sobre engomagem e tinturaria, e acompanhei
alguma coisa dos teares propriamente ditos, mas como já eram máquinas mais
perigosas para um pré-adolescente, nunca me deixaram ficar muito perto.
Fui crescendo e logo passei a ajudar
dentro do escritório, fazendo cadastros de clientes, registrando vendas,
pagamentos nas fichas de controle daquela época. Automaticamente, uma vez
lidando com clientes, passei a fazer vendas, atender aos clientes e fechar
alguns negócios. Em pouco tempo já era Procurador da empresa, assinava alguns
documentos e fazia até viagens para conhecer clientes, representantes e
prospectar novos negócios.
Chegando aos meus 18 anos, já opiniático,
brigava diariamente com meu pai na empresa, por puro conflito de gerações,
entendendo que determinados negócios deveriam ser feitos de uma forma e ele
pensava de outra. Meu pai foi absolutamente um empreendedor em sua vida, tendo
vindo do nada, mas nada mesmo, foi engraxate, empregado, madeireiro, construtor,
e industrial, mas era um homem muito controlado nos gastos, nos riscos, nada
afoito, muito pé no chão e com pouquíssimo estudo, sem formação universitária
nenhuma. Era uma época no Brasil em que era possível vencer assim e ele venceu.
Mas como disse era extremamente “roda presa” e isso criava atritos oméricos
entre nós dois no trabalho.
Aos
17 anos, vivia em itajaí/SC, fui fazer o chamado “terceirão”, que era o
terceiro ano do Científico, já preparatório para o Vestibular, em Porto
Alegre/RS, pois pretendia cursar Medicina lá mesmo no RS, e com isso me afastei
da empresa e fui dedicar-me aos estudos exclusivamente. Passado aquele ano
minha cabeça mudou completamente, a ponto de desistir da Medicina, voltar para
SC e fazer Direito na Universidade ao lado de minha casa... Sair de casa para
viver em outro Estado, teoricamente para nunca mais voltar a viver próximo a
família, já foi uma decisão de coragem; mas desistir daquele futuro (e o fiz
por diversas razões das quais não me arrependo) e dar uma meia volta, retornar
para SC e dar outro rumo na vida, foi ainda mais desafiante.
Tinha
um amigo bastante próximo que já estudava nos EUA há algum tempo, e
com quem me correspondia com alguma frequência, sempre demonstrando meu
interesse em ir para lá também, mas eram condições completamente diferentes as minhas,
inclusive financeiras. Um dia, em uma de nossas conversas, ele me mostra
algumas possibilidades de minha ida, dizendo o que poderia fazer, onde estudar,
e que poderíamos inclusive dividir um quarto onde ele morava, em Boca Raton/FL.
Na verdade a coisa não era tão simples... além da contrariedade absoluta de
meus pais, tinha o dinheiro pra viver, a faculdade, um monte de papelada,
enfim, era uma luta. Mas nada tirava de minha cabeça a ideia de ir para os EUA.
E
não teve dúvida! Busquei as informações e mandei a papelada para ver no que dava.
Não deu! Negaram meu registro na escola que ia fechar, enfim, foi um balde de
água fria, depois de muita discussão em casa, etc. Mas eu não desisti. Busquei
outra escola, fui atrás e no final de 1989 consegui ingresso na escola para um curso de inglês. Meu pai me disse que não me daria
dinheiro pra me sustentar lá, que eu teria que me virar, mas tudo bem,
compraram as passagens e eu vendi minha moto, fiz $1300 dólares na época e
teria que me virar com aquele dinheiro até arrumar trabalho etc. Tranquei a
faculdade por um ano e até hoje me lembro que minha mãe me disse: “você vai,
mas você tem que me
prometer que volta para terminar sua faculdade, depois você pode fazer o que
quiser!” Prometido!
Final de janeiro de 1990 me larguei para terra do Tio Sam.
Chegando lá Fernando e os pais dele que o estavam visitando me pegaram no aeroporto,
me levaram até a casa onde iríamos alugar um quarto, que era de um americano
operário de telhados, e não estava em casa naquele momento, e saíram para
Miami onde ficariam por uns dias antes de voltar ao Brasil. Larguei minhas
coisas e me sentei no gramado na frente da casa e me lembro bem pensando: “o
que é que eu vou fazer agora, o que foi que eu fiz?”
Mas em um mês e meio se bem me recordo eu já estava estudando, já tinha comprado um carro e já estava bem instalado. Passei poucas e boas, até que lá em dezembro, dia 23, véspera de Natal, meus novos parceiros de apartamento (um alemão e um jordaniano) haviam ido passar as festas com seus pais, em seus países, eu sozinho, desolado e triste, com uma dor de dente que já durava meses e eu sem dinheiro para dentista aguentava, pensei: “quer saber, vou embora!”. Já tinha passagem pra marcar, e as 8 da manhã estava a caminho do aeroporto para voltar para o Brasil! Aquele ano foi sem dúvida, a maior aventura de minha vida! Aprendi muito, cresci muito, vivi muito e devo muito àquela experiência. Um ano altamente enriquecedor intelectualmente para dizer o mínimo.
A chegada no Brasil, sem avisar ninguém, foi um capítulo à
parte. Pulei o muro de casa, todos em casa, corri e me joguei na piscina de
roupa e tudo. Detalhe, eu não conhecia a casa ainda, pois meu pai havia
terminado de construir no ano que eu estava fora!
De volta ao Brasil, eu não queria voltar a trabalhar com meu pai. Tinha outra cabeça, havia vivido uma montanha-russa naquele ano e precisava tomar outro rumo. Fiz entrevista numa multinacional de cigarros, para supervisão, mas havia vaga apenas para Vendedor. Não estávamos lá muito satisfeito em ser “vendedor”, mas pagava bem, topei. Era uma multinacional, o plano de carreira era promissor, o salário também e assumi uma região ao redor de Itajaí, que abrangia várias cidades da região do baixo Vale, mas não era a área mais próspera da região, pois não contava com Itajaí propriamente dita e menos ainda com Balneário Camboriú. Era o patinho feio daquela base de vendas. Mas dentre 5 vendedores, 5 áreas de vendas mais prósperas que a minha, cheguei a vencer um concurso de vendas no meu segundo ano na empresa. Por razões diversas e descontente também com o fato de que apesar de promessas feitas de evolução eu não saia daquela região, ao final de 1992 pedi demissão. Assumir uma área de pouca expressão, estudando Direito, decidir trabalhar como Vendedor de cigarros não era lá uma decisão proeminente, mas era empreendedora, pois eu vislumbrava a supervisão de vendas, uma gerência futura, enfim talvez uma carreira em uma das maiores multinacionais de cigarro do mundo. Venci concurso de vendas, dei minha parte, mas também acabei não atuando exatamente como eram os planos da empresa e já desestimulado, caí fora e voltei a trabalhar na Indústria Têxtil da família.
A empresa era ótima e ainda é, mas os conflitos de geração
permaneciam e eu não avançaria ali enquanto meu pai pudesse e quisesse
trabalhar e afinal de contas, era a empresa dele, ele tinha esse direito. Mas
fiquei por mais dois anos na empresa. Havia me formado em Direito no final de
92, quando saí da Souza Cruz e estava avaliando que caminhos seguir dali para
frente.
Em 1994, em parceria com outros dois colegas do Direito,
abrimos um escritório de advocacia. Eles já vinham advogando há coisa de dois
ou três anos e eu começando minha carreira no Direito. A situação de trabalhar
com meu pai não se sustentava e tomei outro rumo. Atuávamos em diversas áreas,
pois cada um de nós três tinha uma tendência, eu mais família, sucessórias e
empresariais; outro mais trabalhista e o terceiro mais comercial. Mas fizemos
ações criminais também. Me recordo de ter conhecido o Periquito e Ratinho (ele
mesmo), então radialistas numa delegacia de Curitiba quando fui tirar um
vigarista da cadeia e voltei a SC com ele no carro... Coisas de advogado em
princípio de carreira! Mas valia tudo.
Foram quatro anos advogando e estava indo bem. Ainda
ganhava muito pouco, mas já tinha contratos com empresas, alguns clientes
cativos. Cheguei a fazer a separação consensual, a restauração do casamento e o
divórcio direto do mesmo casal! Uma empreitada dinâmica, um período bastante
empreendedor, mas uma luta tremenda... sacodia-se uma árvore caiam pelo menos
cinco advogados.
Em 1998, lá pelo mês de fevereiro ou março, um grande amigo do Escotismo, na época diretor da UEB, me questionou se eu toparia assumir o Escritório Nacional da UEB em Brasília! Precisaria participar e vencer regularmente uma seleção e mudar pra Brasília. Mas o salário era umas quatro vezes o que eu ganhava e mais um monte de benefícios... e eu estava noivo! Falei com minha noiva, com a família e topei participar da seleção. Não tinha lá muita esperança, pois sabia que poderia ser um jogo de cartas marcadas, mas não tinha nada a perder: ganhar super bem, viver em Brasília, trabalhar na organização a qual que atuava voluntariamente por anos já, não poderia ser ruim.
A seleção já foi um desafio e tanto. Venci, é claro! Depois
de contratado o antigo Diretor Executivo, um grande amigo depois, me disse que havia um cidadão
concorrendo comigo, que falava 5 línguas, inclusive Farse! Mas eu venci uma
disputa que na fase final havia oito concorrentes.
A UEB é absolutamente um capítulo altamente empreendedor em
minha vida. Casar-me, mudar de SC para o DF, assumir uma função de alto comando
e muitas responsabilidades (a UEB na época tinha um orçamento anual maior do
que o da Industria Têxtil da minha família – ainda tem obviamente), objetivos e
tarefas árduas pela frente, foi incomensuravelmente desafiante e empreendedor.
Para começar uma das tarefas era avaliar a mudança do Escritório Nacional de
Brasília para outra capital mais barata e mais prática; unificar a Loja
Escoteira Nacional em um único ponto central junto ao Escritório Nacional;
criar um novo sistema de registros individuais para organização;
operacionalizar a implantação do novo Programa de Jovens da instituição; além
de representar o Diretor Presidente da UEB em eventos nacionais e
internacionais quando necessário, fazer-me presente em reuniões governamentais
e institucionais de toda ordem; representar o staff da UEB em Congressos
Nacionais, Conferências Mundiais, e gerenciar todo o staff profissional nas
atividades da UEB, sejam acampamentos mundiais, ou reuniões de Diretorias. Foi
uma escola sensacional. Mudou minha vida em todos os sentidos. E como bom
escoteiro, deixei a UEB por divergências de caráter e morais com o Diretor
Presidente à época. Mas valeu cada segundo.
Em 2003, quando saí da UEB, já residindo em Curitiba, para
onde havia mudado o Escritório Nacional, já não advogava mais há cinco anos,
meu pai havia falecido em 2002 e minha irmã mais velha era quem tocava a
fábrica com apoio ainda externo de meu irmão, que posteriormente veio a
trabalhar na empresa onde estão até hoje em dia, e não havendo espaço para mim,
e nem interesse meu naquele momento. O que fazer?
Talvez aí esteja a principal atitude empreendedora de minha
vida. Não necessariamente a melhor, mas a mais pontual e característica.
Sem trabalho, sem interesse de retornar à SC e mesmo de
reiniciar a carreira no Direito, um dos antigos Diretores da UEB, hoje em dia
um grande amigo, me indicou um conhecido que coordenava bases de
representação de uma companhia de cigarros brasileira, a mais antiga fábrica de
cigarros do Brasil, (hoje fechada – fabricava o Mistral).
Eu e minha esposa fizemos uma pesquisa de mercado,
avaliamos algumas possibilidades e fomos à Porto Alegre, nos reunimos com o
cidadão, apresentamos um plano para abertura de uma base em Londrina/PR, pois o
oeste de PR não tinha base da companhia. Apresentamos nosso projeto e
abrimos a tal base lá no oeste paranaense. Investi praticamente toda
minha rescisão da UEB nesse projeto. Cogitávamos mudar para lá, mas
inicialmente fiz meu sogro mudar e gerenciar o negócio para mim, enquanto eu
dava treinamento de vendas, montava toda estrutura da empresa em função da
experiência adquirida nos tempos da multinacional de cigarros.
Concomitantemente, uns meses depois, um casal muito amigo
meu de juventude, haviam aberto uma franquia do VASPEX, ligado
a VASP, na cidade de Tubarão/SC e nos orientaram a procurar a VASP e verificar
a possibilidade de abrir uma nova base em Curitiba/PR. Falavam muito bem do
trabalho, dos lucros, enfim, que valia a pena. Me apresentaram os caminhos e minha esposa e eu montamos um projeto muito bem estruturado, com população atendida,
área de atuação numa região muito grande, populosa e com falta deste serviço em
Curitiba. Levei a proposta à VASP e depois de muitos vais e vens acabamos sendo
aprovados e abrimos uma nova franquia do VASPEX na região do Boqueirão, em
Curitiba. Só que não tínhamos mais dinheiro para tudo isso. Fantini em
Londrina, VASPEX em Curitiba, minhas economias e recursos estavam liquidados. Começamos
do zero... buscando clientes, fazendo prospecção, carregando caixas, coletando
envelopes do outro lado da cidade só para ganhar clientes. Foi brabo! Depois de
viajar o mundo como executivo, jantar com autoridades mundiais, atores de
cinema, administrar altos valores, voltar a literalmente carregar caixa, não
foi fácil!
Ainda eram negócios iniciando, então não geravam nosso sustento nem de longe. Precisei de ajuda da família por um bom período, minha família me ajudou a comprar um carro de carga para o VASPEX, a Indústria Têxtil me adiantava alguns valores que inteiravam as despesas mensais e assim íamos conduzindo as coisas e trabalhando feito loucos, uma vez por mês ou mais em Londrina, a esposa gerenciando o VASPEX, empregados no atendimento, eu nas coletas e entregas, foi dureza.
Até que não deu mais para a base de cigarros. A companhia já
não ia muito bem das pernas, competindo com as grandes multinacionais, empregados
que não paravam no serviço, má aceitação das marcas. Um ano depois fechamos a
empresa, graças a Deus sem dívidas, mas toda minha rescisão tinha sido
investida lá.
Mas tínhamos o VASPEX que avançava a passos lentos, muita
briga com outros franquiados que disputavam área conosco, muita concorrência,
mas o negócio começava a se pagar, a necessidade de recursos da Têxtil diminuía
e vínhamos ganhando mercado.
Já era final de 2005, eu havia perdido o pai, a empresa de cigarros, a cargas se arrastava, mas avançava, e eu já nem me
recordava que havia divulgado meu CV em uma empresa de “Head Hunter”, quando
recebo um telefonema e sou chamado para uma entrevista. Sem desprezar a
possibilidade, era um sábado à tarde, estava em companhia da esposa e amigos em
um parque público da Curitiba, deixei-os lá, passei em casa, troquei de roupa e
fui para tal entrevista.
Meu CV havia sido estudado e pesquisas a meu respeito
tinham sido feitas. A organização não era grande no Brasil, mas era uma
organização mundial chamada JCI – Junior Chamber International, que mais tarde
vim a saber que era a antigamente chamada Câmara Junior. Precisavam de um novo
Secretário Geral, um gerente da Sede Nacional da entidade para fazer exatamente
o que eu fazia na UEB. Concorri com outros cinco candidatos, mas com a
experiência que eu tinha, não havia chance de outro vencer. O salário realmente
não era bom, as condições de trabalho menos ainda, mas havia possibilidade de
busca de recursos e crescimento; dependeria de mim. Como a situação no VAPEX
não era das melhores e minha esposa poderia seguir com o trabalho, agora com apoio do
meu sogro que voltara de Londrina, aceitei.
Naquele período a VASP afundou! E com ela o VASPEX. Tudo que havíamos conquistado com muito suor literalmente, estava desmoronando. Eu trabalhava na JCI e realmente estava gostando do que fazia, tanto quanto na UEB, pois era a minha praia, mas as perspectivas de ganho eram ainda incertas e o VASPEX se acabando. Nesse meio tempo a Ocean Air, que depois veio a se chamar Avianca Brasil, havia comprado parte do ativo da VASP, para ganhar espaços (slots) para aeronaves nos aeroportos e em Curitiba o então gerente da base disse que assumiria a parte de passagens, mas que não queria a carga. Acontece que na compra de parte da VASP, veio junto o VASPEX que não era um CNPJ separado, mas sim parte da Cia Aérea, e com ele, perto de 600 lojas espalhadas pelo país. A Ocean Air tentou inicialmente assumir essa operação, mas acabou vendo que demandaria um investimento e ação na qual não estava focada, e foi fechando uma a uma destas franquias e rescindindo os contratos. Em Curitiba, uma vez que o gerente de base, não queria tocar a carga, que não era a praia dele, havia um Franquiado (nós) que estava por ter o contrato rescindido, mas o Gerente Nacional de Cargas da Avianca nos perguntou se gostaríamos de assumir a base de Cargas da Avianca, transformando nosso contrato de franquia para representação. Estávamos no lugar certo, na hora certa! Aceitamos na hora e passamos a representar a Avianca Brasil em cargas, na base de Curitiba. Agora os agentes de carga nos trariam cargas e nós não teríamos mais que ir atrás de carga na rua. O jogo havia virado!
Eu estava empregado, fazendo o que amo fazer; a esposa administrando um negócio nosso e que agora mostrava-se próspero. Tudo de bom.
Na JCI havia um mundo de projetos a serem implantados e
oportunidades de crescimento pessoal e até profissional de certa forma, muito
grandes. Fechamos acordos com a Federação das Indústrias do Estado do Paraná;
mudamos a Sede Nacional para um escritório magnífico na FIEP; levantamos
financiamento para projeto de crescimento; fizemos crescer em cerca de 10% a
instituição; criamos um novo Diretório Agenda para a organização nacional, onde
ambos projetos (Crescimento e Diretório Agenda) foram premiados como melhor
projeto e melhor publicação em Congressos Mundiais da JCI; Conferência
Interamericana em Curitiba a qual o staff profissional precisou assumir a
incumbência de recuperar a realização que estava pendente (era incumbência de
uma equipe de voluntários da entidade); e muitos outros projetos foram
realizados de forma altamente empreendedora visto que eram projetos inovadores
os quais a instituição não tinha condições de realizar sem uma visão
profissional e desenvolvedora, empreendedora que tinha naquele momento, através
de nossa ajuda.
Na minha empresa de cargas tudo ia de vento em popa. O processo de
reajuste dos contratos foi realizado, reuniões na sede da Avianca Brasil foram
feitas, ajustes de comissões, processos, necessidades foram regularizadas
definitivamente com a ajuda do conhecimento destes processos que adquirimos a
custa de muito estudo e experiência, ainda que em uma área ainda pouco
conhecida por nós, a logística de cargas aéreas.
Mas o espírito empreendedor nos possibilitou desistir
jamais e seguir avançando. Mais adiante, com a empresa crescendo, o nível de
carga aumentando, foram necessárias novas instalações, melhorias, mais
equipamento, mais funcionários, e só crescíamos.
Mas havia um limite! Nosso contrato era de exclusividade
com a Cia Aérea, como são todos os contratos dessa natureza, e não podíamos
diversificar os serviços prestados, pois implicaria em parcerias e contratos
com outras companhias, ou transportadores, o que não era permitido. Nosso
limite de cargas, de clientes, de volume era a quantidade de aeronaves e voos
que a Cia Aérea nos disponibilizava saindo de Curitiba.
Ainda assim o rendimento da empresa era altamente
satisfatório em termos financeiros, mas havia uma insegurança permanente que
era o de simplesmente perder a base por decisão unilateral da Cia Aérea, que
poderia simplesmente entregá-la para outra pessoa “mais próxima” ao diretor de
cargas por exemplo, ou qualquer outra razão. Sabíamos que essa possibilidade
era real, e isso nos mantinha atentos e preocupados. “O segredo do sucesso,
é a eterna vigilância!”
Era 2013 já e na JCI estava relativamente satisfeito com as realizações, e com o ganho financeiro pessoal, pois com os projetos em parceria, meu contrato previa um comissionamento extra o que completava minha remuneração, mas... sempre há um mas... a Diretoria da instituição não via com bons olhos essa remuneração extra, e sentia pressão de voluntários da organização que também não concordavam, o que gerava um conflito constante, pois aquilo era o que mantinha possível minha permanência à frente da organização. Mas em 2013, sete anos como Secretário Geral da JCI Brasil, a situação ficou um tanto insustentável, e discordâncias acabaram por gerar minha inevitável saída. Futuramente, o próprio Presidente Nacional da organização à época me confidenciou ter se arrependido da decisão. É um grande amigo, muito próximo hoje em dia.
Apesar de contrariado com a situação, pois gostava do que
fazia afinal, mas o impacto financeiro não foi importante, em vista do sucesso
de nossa empresa própria de logística de carga aérea.
Em 2014, com a empresa à mil por hora, faturando bem,
estável, começamos a pensar em realizar um sonho comum, minha esposa e eu.
Já tínhamos um filho, nessa época com 5 para 6 anos, e a
insegurança permanente com relação a Avianca e nossa condição de
representantes, principalmente em vista do nosso sucesso, haja vista que a Base
de Curitiba era tida como exemplo nacional de operação. Podia não ser a que
mais faturava, pois não havia como competir com São Paulo por exemplo! Estávamos
entre as seis primeiras em faturamento, mas disparadamente a melhor em
desempenho, menos funcionários e maior produtividade, menor índice de problemas
operacionais. Nos cursos da Avianca à funcionários e agregados éramos
literalmente tomados como exemplo. O que naturalmente poderia chamar a atenção
de oportunistas com poder nas mãos. Mas essa insegurança considerando um filho
para criar estava presente.
E, eu como já era sabido, adorava a chamada America. Minha esposa também ensaiava uma vontade de morar fora do Brasil. Naquela época viajávamos
constantemente de férias, antes eu a negócios na UEB e na JCI, mas em férias
costumávamos ir muito aos EUA. E nestas viagens, sempre surgia a ideia de
“puxa, como seria bom viver por aqui (EUA)”. Novamente o espírito empreendedor,
comecei a avaliar essa possibilidade, se era viável. Durante minha vida já
havia tido, ou criado pelo menos seis oportunidades de uma eventual contratação,
um emprego no exterior, e nunca havia dado certo. Naquela oportunidade, decidi:
“se não sou contratado, vou contratar!”
Um determinado dia recebi um convite para participar de uma palestra sobre esse tema. Fui, conversei, avaliei e em levando em conta que poderíamos contratar um bom gerente; administrar virtualmente à distância; estar na empresa periodicamente; e notadamente se a empresa de cargas, não poderia crescer mais pois nosso limite era da Cia Aérea e não poderia expandir-se no Brasil, poderíamos fazê-lo, fora dele. E iniciamos esse processo.
Aqui há que se notar uma característica empreendedora
absoluta. Este passo implicava em criar uma empresa no exterior, pesquisas de
mercado, viabilidade econômica, mudança de país, outra língua, distância da
família, amigos, recursos financeiros disponíveis, estruturação legal de
permanência em país estrangeiro, enfim, a lista de ações empreendedoras é
imensa. Mas mesmo assim iniciamos os preparativos, contratamos pessoas, tomamos
as medidas necessárias e fomos necessariamente ajudados por iniciativas
empreendedoras do passado, como: meu filho já estudava em escola canadense e
falava inglês; eu já tinha documentos importantíssimos para concretização de
Vistos americanos, como Social Security Number, Driver License e diversos
Vistos aprovados anteriormente; tínhamos ligação com empresas multinacionais,
companhias aéreas, e toda uma história de trabalho que facilitava um bom bocado
todo processo.
Sorte? Acaso? Não creio! Foi visão.
Entre 2014 e 2015 montamos toda estratégia, pesquisas e
necessidades e em setembro de 2015 mudamos para os Estados Unidos da América.
Sem esquecer que para isso demos início a mais uma empresa própria.
Começar um novo negócio nos EUA não é fácil. A
concorrência, principalmente estrangeira (China) é brutal, a natureza do
americano médio não é de pensar fora da casinha, então novas propostas são
tomadas com muito receio e toda uma nova forma de fazer negócios é presente. Um
verdadeiro desafio. Popularmente dizem que os negócios deslancham a partir dos
cinco anos de atividade. Mas até lá há que se aguentar o tranco com investimento,
investimento e investimento.
Em 2018 estávamos firmes, todo projeto de internacionalização dos nossos negócios caminhando bem, ainda gatinhando nos EUA, mas caminhando. A empresa de cargas navegando a todo pano, e nosso planejamento de idas e vindas ao Brasil para gerenciar a empresa funcionando e nem mesmo a Avianca sequer sabia que havíamos nos mudado para fora do país, tal era a eficiência mantida na condução dos negócios no Brasil. Mas a Avianca Brasil não ia bem e enfrentava diversas dificuldades financeiras e administrativas. Conhecidamente as aéreas no Brasil enfrentam situações cíclicas de crise e com a Avianca Brasil não era diferente. O que em 2018 exatamente resultou na quebra da empresa! Não digo que fomos tomados de surpresa, pois já víamos isso acontecendo, mas o fato é que nossa empresa, a Esquadro Cargas, dependia diretamente da Avianca Brasil, carregávamos utilizando exclusivamente os aviões da Avianca, e todas as demais companhias já tinham seus representantes em Curitiba, não havendo qualquer possibilidade de transferência de nossas cargas para outras companhias, pois os próprios agentes de carga também já utilizavam outras companhias para transferência de cargas, nós éramos apenas uma outra companhia que deixou de existir.
A Avianca afundou de um dia para o outro a nossa empresa. E
agora José? (curiosamente o nome do diretor presidente da Avianca Brasil era
José Eframovich...)
Estávamos nos EUA, ainda dependendo financeiramente e
legalmente de nossa empresa no Brasil e de repente um pé do tripé que nos
apoiava ruiu
completamente. A estas alturas tínhamos recursos suficientes para nos garantir
por algum tempo em termos financeiros. Ainda que um tanto favorável em vista da
situação que se desenhava para o futuro da empresa nos EUA mas eram
recursos finitos, e uma ação urgente era necessária para acelerar o processo de
independência financeira da empresa. Mas fora isso, toda essa situação trouxe
agregado um problema altamente relevante que era a necessidade legal da
existência da empresa brasileira dando suporte a empresa americana para
garantir a manutenção do Visto a que estávamos vinculados (L1 – transferência
de executivo).
Para este fim, empreendedoristicamente, tivemos que tomar
determinas medidas, tais como: aumentar o leque de possibilidades de vendas da
empresa americana, buscando novos mercados em novos seguimentos, uma coisa que
estava ainda programada para mais a frente (do floral para o artesanato); e
iniciar um novo procedimento de Vistos não mais baseado na empresa brasileira,
mas sim na minha história de vida empreendedora (EB-2 – National Interest
Waiver - Empreendedor).
Ambas ações demandaram esforços hercúleos a estas alturas,
em vista da quantidade de iniciativas e documentos necessários e em caráter de
urgência. Registramos a empresa americana em uma nova Associação Comercial
ligada ao artesanato, nos preparamos para uma nova feira completamente
diferente da que vínhamos participando até aqui. Levando nosso produto para um
novo público e abrindo um horizonte de abrangência imensa.
E veio a pandemia de Corona Vírus, que atingiu todas as empresas, não somente americanas, mas ao redor do mundo. Ainda assim, tentando sobreviver a todos os percalços, criamos uma plataforma de venda online, importamos material para manter estoques nacionalizados de pronta entrega. Mas fora tudo isso, mantivemos os contatos do seguimento do floral e reiniciamos projetos que anteriormente não puderam ser levados adiante em função da impossibilidade de produção, porém agora com a baixa da produção e consumo poderíamos oferecer com maior segurança. E assim fizemos, o que resultou na possibilidade de fechamento de um grande negócio, que sendo fechado, transformaria completamente o status quo atual.
Concomitantemente a isso, estava o processo de Visto em
andamento. Uma documentação de proporções estratosféricas, traduções, edições,
tabulações, um custo exacerbado, advogados, cópias e centenas de procedimentos
que não podiam parar e, naturalmente, interferiam sobremaneira no moral pessoal
em detrimento da necessidade de concentração no trabalho.
Externado todo esse histórico de ações empreendedoras de uma vida, com vitórias e derrotas, sucessos e fracassos, mas tudo sob uma análise de risco controlada, sendo conhecedor de quais os caminhos podem ser seguidos em uma ou outra realidade.
Minha vida, como a de qualquer pessoa, foi construída em
torno de decisões e ações tomadas que definiram o que eu me tornei e a minha
situação social, político, financeira, enfim quem eu sou.
Tenho muito orgulho de minha história e de tudo que fiz e
porque lutei. Me desentendi com muita gente pelas minhas posturas, arrumei
muita briga, fiz muita gente não gostar de mim, defendendo minhas ideias,
agindo de acordo com aquilo em que acredito, e entendo hoje que alguns termos
acompanham muito intrinsecamente um empreendedor:
- Persistência,
- Coragem,
- Firmeza,
- Conhecimento,
- Audácia,
- Astúcia,
- Criatividade,
- Resiliência,
- Liberdade.
Muito ainda está por vir.

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